Arte-educação, esportes e capacitação profissional são alguns dos eixos norteadores do trabalho realizado pela Central Única das Favelas (Cufa), em suas 28 unidades no território nacional.
Graffiti, Hip Hop, basquete de rua. Estas manifestações culturais populares foram alguns dos caminhos encontrados pela Central Única das Favelas (Cufa) para promover atividades nas áreas da educação e cultura, lazer e esportes para a cidadania, contribuindo para o desenvolvimento humano de jovens atendidos pelas 28 sedes da instituição no Brasil. Em Minas Gerais, na sede da Cufa no município de Santa Luzia, localizado na região metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), cerca de 60 profissionais, entre psicólogos, sociólogos, enfermeiros, professores e oficineiros consolidaram, no incentivo à formação de uma equipe de basquete de rua, os melhores resultados, alcançados em menos de nove meses de funcionamento da instituição na região.
Hermes Machado, 25 anos é um dos jovens beneficiados pelo trabalho da Cufa. Há quatro anos ele começou a fazer as oficinas de produção cultural e hoje aplica algumas oficinas de continuidade neste tema. Antigo morador do Morro das Pedras, Hermes teve sua casa indenizada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas continua visitando a comunidade quando vai ministrar as oficinas e diz que já percebe muitas mudanças. "Vejo pessoas com um pensamento modificado, mais político e crítico. Aonde via violência, vejo cultura. Aonde via falta, vejo oportunidades", declara.
Outro motivo de orgulho para o coordenador geral da Cufa de Santa Luzia, Gilberto Júnior do Nascimento, é ter, entre os participantes do projeto, a atual tri-campeã da Liga Internacional de Basquete de Rua (Libra). Apesar do sucesso na atuação, a Cufa de Santa Luzia será inaugurada oficialmente em novembro deste ano.
Cerca de sete comunidades do município da RMBH são contempladas pelas ações da instituição, voltadas para a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Cursos preparatórios e palestras, estão entre as atividades. " O carro-chefe são as oficinas de dança, que contemplam toda a comunidade", destaca o coordenador Gilberto Júnior do Nascimento. Realizadas em parceria com a prefeitura local que oferece o espaço físico e a remuneração dos profissionais, as aulas são oferecidas de acordo com a metodologia praticada pela Cufa. "O poder executivo já está reconhecendo o nosso trabalho e a instituição foi convidada para fazer parte de um projeto dentro da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social", adianta ele. Gilberto lembra que nem sempre foi assim e que, quando se instalaram na cidade, perceberam a forte ausência de um órgão capaz de absorver toda a demanda cultural produzida e de "cavar" espaços para a visibilidade e o reconhecimento dos artistas. "Nosso interesse é fazer este intercâmbio entre o poder executivo e a comunidade. Facilitamos esse acesso de forma organizada. Percebemos que se criarmos, dentro da comunidade, esse hábito da articulação por meio da comunicação, muitas pessoas podem ser beneficiadas".
CRIAR E DISSEMINAR A SUA PRÓPRIA CULTURA
Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Juarez Dayrell, estilos musicais como o hip-hop e o funk influenciam outras esferas da vida desses jovens, como o trabalho, a escola e a família, entre outros. No livro "A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude", Juarez conclui que estes são os estilos que os jovens, em situação de vulnerabilidade social, escolhem para traduzir mais intensamente sua juventude em um meio carente, com tendência a anular as diversas formas de expressão da cidadania. "São dois estilos democráticos, que possibilitam aos jovens carentes sair da posição de consumidores passivos da cultura - à qual têm dificuldades econômicas de acesso - para se tornarem, eles próprios, os criadores e disseminadores de sua cultura".
Para o coordenador do Núcleo de Graffiti, Willian Messias, conhecido como "W Will" apesar do preconceito ainda existente, os jovens se tornam protagonistas de suas histórias quando entendem que o graffiti pode revitalizar não só muros, mas vidas. "É a arte urbana que resgata a autoestima da periferia, a partir daí o jovem se vê em outra realidade, se apropriando de espaços, convivendo com a arte, sendo reconhecido e visto por outras pessoas", diz Messias. Fundada em 1998 como um pólo de produção cultural para jovens cariocas, oferecendo perspectivas e alternativas para a inclusão social, a Central Única das Favelas é uma organização nacional que surgiu através de reuniões de jovens de várias comunidades do Rio de Janeiro (capital) que buscavam um espaço na cidade para expressão sociocultural

GRAFFITI X PICHAÇÃO Graffiti: é uma forma de expressão, no âmbito das artes visuais urbanas, geralmente uma inscrição caligrafada ou um desenho pintado ou gravado, sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade, como paredes e muros. O grafite é um movimento, organizado nas artes plásticas. Apareceu no final dos anos 70 em Nova Iorque, como movimentos culturais das minorias excluídas da cidade. Com a revolução contracultural de 1968, surgiram nos muros de Paris as primeiras manifestações.
Pichação: Diferentemente do grafite, cuja preocupação é a ordem estética, o piche tem como objetivo a demarcação de territórios entre grupos. A pichação é considerada uma atitude de vandalismo. o artigo 65 da lei dos crimes ambientais, número 9.605/98 (1998), estabelece punição de três meses a um ano de cadeia e pagamento de multa.
LITZA MATTOS
EDITORA-ADJUNTA